A maioria dos angolanos viram  à sexta edição da maior festa de música angolana no passado sábado. O tapete amarelo foi a quebrada do melhor que música angolana tem para oferecer, bem como o espetáculo que é a cerimônia de premiação do Angola Music Award ( AMA).

Na noite em que os criadores da trilha sonora das nossas vidas brilharam como diamante, talvez ninguém brilhou mais do que Miguel Buila, o vencedor da categoria gospel. Sua excitação era contagiante, sua felicidade não podia ser contida, e não devia ele tinha acabado de ganhar. Aquele era o momento dele!

A bíblia diz que os humilhados serão exaltados, palavras mais verdadeiras não poderiam ser escolhidas para descrever o que aconteceu. Antes que o irmão Miguel pudesse reivindicar seu prêmio, antes que ele pudesse ser glorificado, ele teve que subir os degraus do que deve ter parecido a torre de Babel.

O que deveria ser um momento glorioso, um momento triunfante para Buila, tornou-se numa lembrança vergonhosa, dolorosa e triste da realidade da dikulo de acessibilidade para pessoas com deficiência? O artista rolou a cadeira de rodas em direção as escadas do palco, subiu ao palco para receber seu prêmio.

Os aplausos converteram-se em descrença, perplexidade e creio eu raiva. Os apresentadores, desajeitadamente correram para as escadas, sem saber qual seria o protocolo certo a seguir diante o triste acontecido que foi aquele momento. O comitê organizacional do AMA foi legitimamente criticado, é inconcebível e inexplicável que o comitê não preparou adequadamente o estágio para a acessibilidade para deficiência, sabendo que uma pessoa com deficiência foi nomeada.

Veja o video 

 
 

O fiasco brilha luz no problema que o país não resolveu. De acordo com um artigo escrito pela Voz de América em Março deste ano, 2,5% da população, ou seja, 650.000 pessoas têm algum tipo de deficiência. Em 2002, o então ministro da Assistência e Reinserção Social João Ernesto do Santos estimou que cerca de 80.000 pessoas foram mutiladas devido à guerra civil. Infelizmente, a implantação da lei da acessibilidade aprovada em 2016 parece não ter a urgência que a aquisição dos novos Lexus teve. Como consequência, os mecanismos de acessibilidade, a consideração e a sensibilidade dos nossos manos e manas mas deficientes não fazem parte da vida diária. É obviamente evidente que pessoas com deficiência foram totalmente esquecidas, grosseiramente desconsideradas na formulação de políticas públicas.

Já se perguntou como uma pessoa deficiente chega ao 4 º andar dos edifícios nas novas centralidades sem elevador? já se perguntou como uma pessoa em uma cadeira de rodas em Angola apanha o machibombo público? As instalações públicas e privadas são projetadas para a inclusão de pessoas com deficiência? As casas de banho de restaurantes, escolas, são projetadas para pessoas com deficiência? Há sinais em braille para quem não consegue ver nos edifícios?

A verdade é de todos nós na sociedade devemos exigir a implementação da lei de acessibilidade. Somos igualmente culpados pelo que aconteceu no sábado. Não tenho a certeza, mas acredito que a AMA não emitiu um pedido de desculpas pelo grave pecado que cometeram, o silêncio do Ministério da Acção Social não podia ser mais alto. A Associação Nacional de Deficientes de Angola (ANDA) não emitiu, um comunicado ainda por quê? Eu não sei!  As nossas vozes têm que ser mais altas que as vozes que se calam! Devemos manter as entidades que mencionei acima responsáveis e o governo de JLO já que eles são os responsáveis overnação do país . Devemos nos importar mais e não apenas nos lembrar dessa questão quando ocorre uma situação como a que aconteceu na AMA.

O cantor evangélico l mostrou grande humildade, ele definitivamente é um homem melhor que eu. Eu não teria subido ao palco. É por isso que ele ganhou a categoria gospel e estou escrevendo essa matéria. Eu sinto que o irmão Miguel perdeu uma oportunidade de ser um activista, talvez a voz principal para a causa, para que os outros não tenham que passar pela a mesma coisa que ele passou.

Espero que isso sirva de alerta, espero que nunca mais tenhamos que testemunhar aquela cena triste novamente. Assim como o muro de Jericó caíram quando o povo de Deus tocaram as suas trombetas, vamos as nossas trombetas, vamos tocamos a nossa marimbas, tocar os nosso reco recos, gritamos e até mesmo xingue se necessário para trazer os muros da inacessibilidade para os portadores de deficiência abaixo em Angola.